Delegado aponta problemas na segurança pública
“A política de segurança é voltada para prisão e não prevenção”, diz
Cotidiano 01/10/2014 07h00

Por Fernanda Araujo

Inúmeras ocorrências de crimes colocam a segurança pública em xeque, e deixam a população vulnerável. São tráficos de armas, assaltos, homicídios, estupros, sequestros... e, sobretudo, tráfico de drogas. Ainda dentro deste mundo do crime, existem as penitenciárias e delegacias do país, que sofrem com a superlotação, com contingente mínimo de agentes e com outros problemas que asfixiam quaisquer projetos de ressocialização. .

De acordo com o delegado da 2º Delegacia Metropolitana de Aracaju, Luciano Cardoso, a política de segurança é somente voltada para prisão e não para a prevenção dos delitos. Luciano Cardoso fala com a experiência amealhada em mais de 30 anos de polícia - tempo em que já exerceu cargos como secretário adjunto da Secretaria de Estado da Segurança Pública (SSP), chefe de polícia, coordenador das delegacias da capital e do interior e agente federal, para chegar à conclusão: é preciso mudar a legislação brasileira.

“A nossa população carcerária, hoje, basicamente, temos, em média, 70% de pseudo-traficantes, ou seja, aquele viciado que pega 100 pedras, 50 para consumir e 50 para vender. Estamos hiper lotando o nosso sistema carcerário por conta disso. E esses viciados, que na verdade precisam de tratamento, de repente, se empolgam e começam a dever à ‘boca’. E a boca não perdoa, mata quem deve. Você pode ver que não é um só que mata, a média são três, e assim fica superlotando os presídios. Além disso, não existe país de primeiro mundo sem controle de natalidade”, afirma Cardoso, revelando que, na 2º DM, há, em média, 70 presos trancafiados numa estrutura projetada para, no máximo 30. “Essa é uma realidade Brasil, não é somente aqui”, lamenta. 

A falta de segurança nas fronteiras do país também é alvo de críticas do delegado. Ele afirma que estão escancaradas, tanto as marítimas como as aéreas e as terrestres. Luciano Cardoso aponta que no Brasil há mais de 300 aeroportos clandestinos e é por onde principalmente as drogas e armas entram. “Por incrível que pareça, onde se mais se combate é a terrestre e ainda com toda a precariedade. Para ver a calamidade e o descaso que estão as fronteiras marítimas e aéreas. Eles não pensam nisso e aí estouram em todo o país. As Forças Armadas falam que combater na fronteira não é deles, aí eu pergunto, por que está nas UPPS do Rio de Janeiro?”, questiona.

Segundo Luciano, é preciso que a segurança do país seja revista. Para ele, não é mais aceitável ter duas polícias: é preciso integrá-las. O delegado prega a desmilitarização. “Não tem cabimento ter uma Polícia Militar para tratar com civil. Tem que ter uma integração das ações da polícia para que num futuro unificar as polícias. Segundo dados do Data Folha (Instituto de pesquisas do jornal Folha de S.Paulo) 78% dos policiais são a favor da desmilitarização. Quando se desmilitariza é um convite para a integração das polícias”, acredita.

Por fim, o delegado salienta que, segundo as estatísticas de Sergipe, acontecem 56 mil homicídios por ano. "O atual sistema penitenciário, a atual polícia é um modelo arcaico, oneroso e ineficiente. Os crimes acontecem 70% devido a drogas, 10% ignorância, 20% crimes de ímpeto. É preciso políticas de segurança eficientes. Gasta-se bilhões na segurança e tira do que poderia ser investido na educação."

Foto: Fernanda Araujo

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