Em Aracaju, grafite é instrumento para o empoderamento feminino
Aracajuanas usam a arte como meio de se integrar no cenário político e cultural
Cotidiano | Por Victória Valverde* 09/08/2018 15h00 - Atualizado em 10/08/2018 11h13

O grafite é uma arte urbana originária das ruas de Nova Iorque, na década de 70. Transgressora, esta manifestação cultural grita nas paredes os incômodos da população e tem grande potencial político ao dar voz a quem, muitas vezes, vive à margem da sociedade.

Apesar de ser vangloriado em todo o mundo, o grafite e o artista que o pratica enfrentam muito preconceito. Somando-se à intolerância, entra a questão de gênero, já que o lugar da mulher neste contexto ainda é motivo de polêmica.

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Grafiteiras

“Um grito”. Foi assim que a grafiteira sergipana “Buga” definiu o grafite. Ela conheceu a arte em meados de 2014 através de um amigo e, desde então, não a largou mais. Seu estilo se manifesta por meio de cores vibrantes e reflexões críticas.

Quando questionada sobre o panorama do grafite em Aracaju, Buga o definiu como “uma criança em fase de crescimento”. É cada vez mais comum, ao se andar pelas ruas da cidade, ver muros coloridos, com mensagens que nos fazem entrar em contato com outras vozes fora do nosso ciclo social.

Mariana Teles, estudante de 27 anos, teve sua iniciação no grafite em 2016. Sua arte está atrelada ao hip hop e ao movimento feminista. Para a estudante, o grafite é a forma de ocupar seu local de fala.

“A cidade tem um sentido de desenvolvimento que proporciona um distanciamento entre as pessoas e a rua. Muros altos e extensos, condomínios privados, grandes e extensas avenidas, a priorização do carro como meio de transporte, tudo isso gera uma cidade onde se tornou perigoso estar e ocupar as ruas. O graffiti é o meu 'eu' político dizendo não para isso”, afirma Mariana.

Já Andreza Cintra, uma das pioneiras na cena do grafite feminino em Aracaju, descobriu a manifestação cultural na faculdade de publicidade, através de uma matéria do curso. Ao ver o grafite ganhar vida, se apaixonou.

“O grafite é meu estilo de vida. Minhas roupas, meu quarto, meu gosto musical, está tudo conectado à arte”, relata Andreza, que já faz parte do movimento desde 2011.

Buga, Mariana Teles e Andreza Cintra são algumas das mulheres que fazem parte da cena do grafite em Aracaju, mas ainda há muito preconceito no meio.

Intolerância

Mariana chama atenção para o preconceito que recai sobre as mulheres que participam do movimento. “Existem diversos eventos de graffiti apenas para mulheres, mas a intolerância sempre se faz viva, por isso é necessário o pertencimento das mulheres nos seus espaços, sejam ele quais forem", disse.

Andreza relata que, no início, chegou a sofrer ameaças. “Quando o pessoal descobriu que eu era mulher, houve uma rivalidade. Meus trabalhos eram apagados e já me mandaram até foto de arma de fogo, querendo me oprimir. Fiquei um bom tempo com receio, mas passou. Continuo na resistência”, afirma.

Em razão da predominância dos homens no grafite, ele é rotulado, em sua maioria, como parte do universo masculino. Porém, graças aos trabalhos de Buga, Mariana, Andreza e tantas outras, as mulheres têm ocupado seu lugar de fala através da arte e mostrado que, sim, elas têm voz e irão usá-la. 

 

*estagiária sob a supervisão do jornalista Will Rodriguez.

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