Feminicídio: a dor de quem fica
Casos crescem em Sergipe e revelam desafios no enfrentamento à violência de gênero Cotidiano 26/02/2018 18h00 - Atualizado em 26/02/2018 18h26Por F5 News
Foram seis anos de convivência, dois filhos e muitas brigas. Um relacionamento que desde o começo dava indícios de que não terminaria bem. A descrição fala de uma mulher, Maria Clara, mas se assemelha a de muitas outras que perderam a vida de forma trágica e violenta, onde as juras de amor se transformaram em ódio, revelando uma triste realidade: o crescimento do feminicídio em Sergipe. Em 2017 foram 10 vítimas desse tipo de crime e este ano já são mais de cinco.
Maria Clara Souza Machado Santos, 25, deixou o ex-companheiro com quem já tinha dois filhos e foi viver com Anderson Conceição Oliveira, com quem teve mais dois filhos. Toda vizinhança sabia das brigas e das agressões por ela sofridas, mas ninguém queria se meter na vida do casal. Anderson foi preso três dias depois do crime. Ele era ex-presidiário e, segundo a polícia, ainda mantinha relações com o tráfico de drogas. O histórico criminal dele afastava a família de Maria Clara, que não concordava com o relacionamento da filha. “Mas o amor é cego”, diz seu Valdomiro Elias dos Santos, pai da vítima.Seu Valdomiro conta ainda que na noite anterior ao crime o casal brigou e Anderson agrediu Maria Clara. “No dia seguinte ela arrumou as malas e saiu de casa ameaçando entregá-lo para a polícia. Pouco tempo depois, ele foi atrás, passou em frente a minha casa na garupa de uma moto, e em menos de 10 minutos retornou. Ele matou minha filha a sangue frio, com o filho deles agarrado nas pernas dela”, lembra.
A morte da filha, às vésperas do Natal, veio como uma punhalada para a família. Ainda muito abalado, seu Valdomiro desabafa: “Eu já tinha ouvido falar dessa dor, mas nunca tinha sentido. Não sabia que machucava tanto. A morte pra ele é muito pouco para a dor que a família está sentindo”, diz.
Maria Clara virou estatística ao lado de outras nove mulheres que perderam a vida em 2017, vítimas de feminicídio em Sergipe, um crime de ódio contra a mulher, quando o homicídio está ligado à violência doméstica. O termo, segundo a Secretaria de Segurança Pública (SSP), é uma qualificadora, uma circunstância que altera o quantitativo de pena para quem comete o crime.
Sem freio
O mais recente caso a entrar para a estatística aconteceu nas primeiras horas da manhã do domingo (25), no Loteamento Cruzeiro do Sul, na região do Robalo, na Zona de Expansão de Aracaju. A vitima foi a dona de casa Claudiana Lopes da Silva, 34, morta a facadas pelo companheiro, Cosme Marques de Souza, 40, que é ex-presidiário e usa tornozeleira eletrônica. Antes de fugir ele ainda esfaqueou a enteada de 15 anos, que foi socorrida.
No mês de abril do ano passado, Franciele Costa, 30, foi morta a tiros no povoado Lagoa Redonda, em Porto da Folha. Em junho, o corpo de Eliene de Jesus Santos, 34, foi encontrado na Praia da Caueira em Itaporanga D´Ajuda. Em julho, Kamila Rocha Melo, 20, foi espancada até a morte em Nossa Senhora da Glória. Todas foram vítimas do ódio de homens que se sentiam donos, e invariavelmente, não aceitavam o fim do relacionamento.
Em novembro de 2017, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) concluiu que o Brasil tem a quinta maior taxa de feminicídio do mundo e apontou Sergipe como o 8º lugar mais violento do país para as mulheres. E isso não se refere somente a homicídios, mas também a agressões físicas, verbais e psicológicas.
Segundo dados da Coordenadoria de Estatística e Análise Criminal (CEAcrim) da SSP, de janeiro a outubro do ano passado cerca de 4 mil mulheres foram vítimas de violência doméstica em Sergipe. O maior número de casos se concentra na região metropolitana de Aracaju, com 2.141 vítimas. Envolvendo lesão corporal, foram 1124 casos.
A capital sergipana também é destaque quando o assunto é incidência de casos de violência doméstica, ficando no terceiro lugar do ranking do Nordeste com 46,67%, atrás de Maceió na liderança com 68,89% e Recife, com 53,33%, conforme o levantamento realizado pela ONU Mulheres em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC).
O estudo mostra ainda que as crianças também são expostas à violência dentro de casa. Em Aracaju, 62,1% das crianças presenciaram quando mulheres foram agredidas dentro do domicílio. E em cerca de 15,5% dos casos, crianças também foram alvos das agressões.
Para a psicologia, a violência contra a mulher está ligada a um contexto histórico do lugar da mulher na sociedade, pensamento compartilhado pelo delegado Mário Leoni. Ele diz que nesse tipo de relacionamento a mulher é subjugada por uma cultura machista, patriarcal, em que esses homens se sentem donos dessas mulheres, e elas são tidas como objetos deles.
“Elas sofrem toda forma de abuso, violência psicológica, física, sexual, então o assassinato é a consequência mais grave, mas infelizmente tem sido cada vez maior o número de casos de violência doméstica. Isso significa que a gente precisa mudar nossa mentalidade, nossos valores precisam ser repensados em sociedade”, diz Leoni.
O delegado Mário Leoni acrescenta que esses casos mostram apenas a ponta do iceberg e, em sua maioria, essas vitimas sofreram assédios, abusos, ameaças, numa escalada de violência que culminou nos assassinatos. “Esses episódios nos chocam, mas são só a ponta do iceberg. Então é muito importante que essas vítimas se sintam encorajadas a denunciar”.
Ele destaca também que em muitos casos a mulher se sente intimidada, tem medo ou vergonha de denunciar e por isso, é papel da família e também dos vizinhos intervir. “Essa história de dizer que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, isso está errado. A sociedade em geral, sempre que tomar conhecimento de uma violência contra a mulher, que denuncie, nem que seja de forma anônima, mas para que a polícia tenha conhecimento desses fatos e possa tomar as medidas necessárias no sentido de prevenir e evitar que esses crimes bárbaros aconteçam”, afirma o delegado.
Fotos: Reprodução/Rede Social

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