Gestores devem ser punidos, dizem Sindimed e CRM
Cotidiano 16/07/2013 16h20

Por Fernanda Araujo

Apesar da denúncia da médica obstetra Tuanny Temer de Oliveira, formaliza como queixa na Delegacia Plantonista e segundo a qual por causa da falta de três médicos que deveriam estar no plantão da manhã de sábado, a maternidade Nossa Senhora de Lourdes suspendeu o atendimento à demanda espontânea, o médico e presidente do Sindicato dos Médicos de Sergipe, João Augusto, afirma que os gestores são quem devem ser punidos, a exemplo do superintendente administrativo da maternidade e o diretor geral da Fundação Hospitalar de Saúde.

Cinco pediatras deveriam estar prestando atendimento no local, mas apenas duas médicas cumpriram o plantão, disse a obstetra Tuanny no Boletim de Ocorrência. Segundo João Augusto (foto abaixo), o problema não é falta de médico, mas uma deficiência no serviço da maternidade e são os gestores os responsáveis. Ele afirma que não existem médicos suficientes para fechar a escala e a superlotação é constante.

“A escala de obstetra é insuficiente, de pediatras na UTI Neonatal também, e a estrutura é precária. Nada disso é novidade. O que aconteceu é que somente dois médicos obstetras estavam na escala. E na sexta não tem nenhum na Neo Natal”, disse.

Em nota emitida hoje pelo sindicato, ele avalia que, as péssimas condições de trabalho, a falta de medicamentos e insumos, mau funcionamento de equipamentos, superlotação e o quadro reduzido de obstetras (devido a baixos salários) contribuem com o caos, agravado pela desistência também de muitos profissionais em trabalhar no local.

“Pedimos ao MP e ao Poder Judiciário que comecem a penalizar criminalmente esses gestores. Os médicos e o sindicato não têm mais o que fazer, esse não é o primeiro BO dos médicos, e enquanto isso nada é resolvido. As crianças estão morrendo e os gestores continuam ganhando o seu salário, indo à praia, viajando, como se nada tivesse acontecendo. Falta política de prisão contra eles. Falta a justiça tomar coragem. Simplesmente a polícia não investiga, não indicia ninguém. O delegado tem que trabalhar”.

A nota do Sindimed diz ainda que Sergipe possui um dos maiores índices de mortalidade materna do país: 86 mortes por 100 mil habitantes. Além disso, registra vários casos de morte ou deficiências em bebês, no prénatal e/ou pós parto.

“No interior, o prénatal é feito por enfermeiros, o que é uma conduta totalmente errada. Na rede pública estão querendo botar para os enfermeiros. Em maternidade de alto risco, risco pressupõe que é possível acontecer mortes, mas não necessariamente devem acontecer”.

Para ele, se a situação perdurar, daqui a uns dias não haverá mais médicos na maternidade. “Nos resta torcer para que o Poder Judiciário tome providências”.

Uma audiência no Ministério Público Estadual, com o promotor Nilzir Vieira, discutirá essa situação.

Conselho Regional de Medicina

Na maternidade Nossa Senhora de Lourdes, o atendimento à demanda espontânea, a exceção de casos de urgência e pacientes encaminhados por profissionais de alto risco, foi suspenso até que a escala de médicos obstetras seja regularizada.

Se o médico que está no plantão atender a demanda espontânea, poderá responder a processo ético profissional, por desobediência a ordem do CRM. O diretor José Roberto Melara disse que as providências tomadas foram essas. Sobre os médicos que possivelmente faltaram ao plantão da manhã, ele alega que não pode haver essa afirmação pelo fato de não existir escala na maternidade.

“Como pode dizer que faltou se lá não tem escala? Eu procurei e não tem. Só passou a ser completada à tarde quando se mobilizaram. É falta de gerenciamento, pois eles sabiam desde sexta-feira desse problema. A maternidade Nossa Senhora de Lourdes deveria ser exemplo do Estado”. De acordo com ele, eram dois profissionais tentando atender a cerca de 40 pacientes ao mesmo tempo: 24 pacientes estavam em macas com crianças, correndo o risco de caírem; quatro aguardando procedimento cirúrgico e uma aguardando atendimento para ser transferida.

O CRM constata que são necessários quatro profissionais por plantão e 6 mil leitos hospitalares. No entanto, nos últimos cinco anos Sergipe perdeu 11% dos leitos, ou seja 400, com hospitais fechados, como o Santa Lúcia, a maternidade Hildete Falcão e alguns do interior. Em 2007 eram 3.950 leitos; hoje são 3.541, um déficit de 2.500.

“Por isso vemos esse caos, inclusive pacientes no chão, no corredor no Huse. O caos não é culpa da falta de profissionais, profissionais nós temos. É da gestão. Profissional não compra leito, maca, nem medicamentos. Temos um número de profissionais no Estado acima da média, é o 3º maior índice do Nordeste por habitantes. O que não tem é estímulo. A própria mídia governamental prega contra o médico. Só acredito na melhora da saúde pública, quando as esposas de nossos políticos forem atendidas nos hospitais públicos. O culpado é o Estado”, diz Melara.

FHS

Por sua vez, o diretor operacional Wagner Andrade, da Fundação Hospitalar de Saúde, através de nota, informou que na manhã do sábado havia dois médicos de plantão para receber os pacientes na maternidade, e outros dois no setor de internamento, nas alas rosa e azul, para dar suporte. À tarde, eram três médicos de plantão e quatro pela noite, número recomendado para este tipo de unidade, de acordo com a FHS. 

 “Durante a semana, a FHS buscou junto ao corpo clínico da obstetrícia resolver o desfalque na escala da urgência da manhã do sábado. Sem nenhum retorno positivo do grupo (nenhuma troca de plantão e nem realização de plantão por hora extra). Em caso de emergência, as médicas plantonistas poderiam ter acionado os médicos plantonistas que estavam no setor internamento. Contratar médicos para manter as escalas completas tem sido uma prioridade nossa e temos avançado nas contratações de diversas áreas na rede hospitalar em todo o Estado, a exemplo da ortopedia. Inclusive realizamos uma reunião na manhã de ontem, segunda-feira, 15, com os gestores das maternidades para pedir empenho total de todos eles nesse sentido. Avançamos e vamos avançar mais. Por ser situada em Aracaju, sempre que há fechamento dos plantões das unidades de saúde que oferecem atendimento às gestantes de risco habitual, essa demanda é direcionada de forma espontânea para a Maternidade Nossa Senhora de Lourdes, causando essa superlotação. Outro fator é a alta procura pela unidade por gestantes de baixo e médio risco, quando a unidade deve atender exclusivamente casos mais graves”, afirmou o diretor. 

Leia também

Pediatra denuncia ameaça de infecção generalizada de bebês

Mais Notícias de Cotidiano
Pedro Ramos/Especial para o F5News
28/10/2021  09h31 A vida de quem não tem um lugar digno para morar em meio à pandemia
Falta de acesso à habitação persiste e desafia efetivação da cidadania
Foto: AAN/Reprodução
11/03/2021  18h30 Prefeitura realizará testes RT-PCR em assintomáticos no Soledade
Testagem ocorre a partir das 8h, na área externa da UBS Carlos Hardmam.
Foto: Agência Brasil/Reprodução
11/03/2021  17h30 Em dois novos editais, IBGE abre inscrições para 114 vagas em Sergipe
Os contratos terão duração de até um ano, com possibilidade de prorrogação
Foto: SSP/SE/Reprodução
11/03/2021  16h10 Polícia prende suspeito de furtar prédio do antigo PAC do Siqueira
Homem foi flagrado pelas câmeras de segurança do Ciosp levando uma porta
Foto: SES
11/03/2021  16h10 Com aumento de casos, Sergipe teme falta de insumos hospitalares
Secretária Mércia Feitosa lembra necessidade de reduzir ocupação de leitos