Leia Mulheres: movimento incentiva disseminação do trabalho de escritoras
Projeto foi reativado em Aracaju em janeiro deste ano
Cotidiano | Por Victória Valverde* 04/08/2019 07h25

Quantos livros você leu nos últimos três anos? Agora, quantos desses livros foram escritos por  mulheres? A desigualdade de gênero é uma problemática discutida e confirmada em várias áreas da sociedade e um dos espaços que ela afeta é o mercado literário.

As pesquisas que apontam essa disparidade na literatura são escassas, mas existem.  O livro “Literatura brasileira contemporânea – um território contestado”,  da escritora Regina Dalcastagné, examinou 258 obras publicadas entre 1990 e 2004 pelas maiores editoras literárias do Brasil na época: Companhia das Letras, Rocco e Record. A pesquisa mostrou que 72% dos autores dos livros eram homens, brancos, de classe média e moradores do Rio de Janeiro ou São Paulo.

Mesmo ao serem publicadas, muitas escritoras não ganham prestígio pelo seu trabalho, o que fica claro ao observar a lista dos ganhadores dos prêmios literários mais estimados. No prêmio Camões de Literatura, concedido a escritores do Brasil e de Portugal, apenas 6 mulheres foram homenageadas em 30 anos da premiação.

O  Jabuti, considerado o mais importante prêmio literário brasileiro, homenageou apenas 13 mulheres desde 1959. Em relação ao prêmio Nobel da literatura ao todo 114 pessoas já foram homenageadas, sendo apenas 14 mulheres. O motivo da falta de credibilidade e propagação da literatura escrita por mulheres pode se dar pelo fato de muitos ainda acharem que mulher só escreve romance e clichê, pensamento da mesma linha de " lugar da mulher é na cozinha".

Como resposta a esta problemática, a ilustradora e jornalista britânica Joanna Wash criou em 2014 a hashtag #LeiaMulheres (originalmente #ReadWomen2014), que foi disseminada através das redes sociais e alcançou diversos países. A iniciativa inspirou a criação de grupos de leitura ao redor do mundo. No Brasil, o primeiro clube de leitura do Leia Mulheres foi em São Paulo, a partir do trio de amigas Juliana Gomes, Juliana Leuenroth e Michelle Henriques. Hoje, a ideia já se espalhou por mais de 100 cidades brasileiras, incluindo Aracaju.

Leia Mulheres em Aracaju

Após um período desativado, o Leia Mulheres voltou a funcionar em Aracaju em janeiro deste ano. O grupo é mediado por quatro amigos: Mariana Passos, Erika Duarte, Isa Aragão e Carlos Tourinho. A proposta é discutir um livro por mês, decidido pelos mediadores através de alguns critérios: os livros devem ser de fácil acesso, terem temáticas diversas e, claro, serem de autoria feminina. 

Já foram realizadas as leituras dos livros: “Sejamos todos feministas” de Chimamanda Ngozi Adichie; “O conto da aia” de Margaret Atwood; “Olhos d’água” de Conceição Evaristo; “O holocausto brasileiro” de Daniela Arbex e “Mulheres, raça e classe” de Angela Davis. A leitura de agosto será “A política sexual da carne, escrito por Carol J. Adams. A data da próxima reunião será divulgada através do instagram @leiamulheresaju. Atualmente, o grupo de Whatsaap do projeto conta com 66 participantes.

A estudante de psicologia Erika Duarte, uma das mediadoras do grupo, acredita que a iniciativa é de extrema importância pois, além de estimular o hábito da leitura, traz a tona a importância de disseminar o trabalho de escritoras mulheres.

“Sempre gostei muito de ler, mas nunca estava atenta aos autores que lia. Depois que conheci o Leia Mulheres, comecei a observar não só o que estava lendo, mas quem estava lendo. Foi assustador perceber que poucas eram as mulheres e que essa disparidade não estava apenas em meu acervo pessoal, mas também nas livrarias e editoras”, relata Erika.

A estudante de psicologia Mariana Passos, de 21 anos, nunca foi muito de ler, mas, ao entrar no grupo, tem se envolvido cada vez mais com o universo literário.

“Minha parte favorita do Leia Mulheres é entrar em contato com vivências de mulheres que diferem da minha realidade, o que me faz ampliar a consciência para além do meu ciclo social. O Leia Mulheres é aberto a todos. É para aprender, agregar. As vivências de cada um contribuem para o debate”, diz Mariana.

Homem também entra

O médico Carlos Tourinho, de 29 anos, conheceu o projeto Leia Mulheres em 2017 por uma amiga. O seu interesse em participar do projeto nasceu da vontade de compartilhar experiências dentro de um grupo e de entrar em contato com obras que possivelmente nunca chegariam em suas mãos para leitura, seja pelo desconhecimento ou por estar fora da sua zona de conforto.

“Com o Leia Mulheres, percebi que o número de autoras que lia era praticamente nulo. Eu realmente não saberia nomear autoras que já eram conhecidas e lidas por mim antes do clube. Por conta disso, vi na oportunidade de participar um motivo para diversificar as experiências que encontro nos livros. Precisamos aumentar nosso contato com obras “minoritárias” para ter maior conhecimento das realidades que permeia o nosso entorno ou até ter algum texto que conecte com sua própria história.”, explica Carlos.

Carlos conta que a sua experiência mais marcante com o Leia Mulheres foi durante a leitura e discussão do livro “Sejamos todos feministas”. Durante o encontro, ele teve o seu maior ensinamento dentro do clube de leitura: o escutar no lugar de ouvir, sendo o escutar sinônimo da atenção no que está sendo falado e o ouvir como apenas perceber os sons e não os interpretar.

“ Durante a primeira metade do encontro, apenas escutei tudo que aquelas mulheres tinham para dizer sobre suas experiências com o livro e com as várias vertentes do feminismo. Num momento, estava-se discutindo sobre o que será que homens achariam daquilo tudo e automaticamente todas viraram seus olhares para mim. Naquele instante, percebi que aquela seria a hora que eu poderia expor minhas opiniões, não por ser intimidado, mas sim por ver que qualquer fala minha poderia comprometer a vertente de diálogos gerados até então”, lembra o médico.

Quem quiser participar do Leia Mulheres em Aracaju pode entrar no grupo de Whatsaap do a partir do link na descrição do instagram @leiamulheresaju.

*estagiária sob a orientação da jornalista Monica Pinto.

 

 

 

 

 

 

 

 

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