Mata do Junco: Crianças de Capela aprendem a proteger reserva
Local é o segundo maior remanescente de Mata Atlântica do estado Cotidiano 14/04/2015 07h47“Bodoque”, “estilingue”, armadilhas e gaiolas. Morar na Zona Rural de Capela, perto de uma área de mata atlântica, usar esses objetos era comum. Diversão garantida, feita por crianças e adolescentes que aprenderam com os pais, desde cedo, a atirar pedras ou prender os pássaros em gaiolas. Desmatar, caçar, fazer trilhas também era permitido.
Até que surgiu a preocupação com o meio ambiente, trabalho contínuo, por vezes isolado, que foi ganhando atenção e se multiplicando, dia a dia, através da mídia, de ações nas escolas e da própria comunidade, e as crianças foram mudando o pensamento e o tipo de diversão, passou a ser o inverso. A professora da Escola Municipal Rural Lagoa Seca Rivalda Nascimento Santos comentou essa mudança, “Antes eles não tinham conhecimento e eles matavam as aves e depois desse curso eles mesmos passaram a defender as aves”, disse e acrescentou que a Escola realiza um projeto inovador, pede que os alunos troquem estilingues e gaiolas em trocas de cadernos e livros. “A iniciativa deu certo não só com os alunos, mas com a vizinhança, depois desse trabalho que eles fizeram, eles próprios pegavam os estilingues dos vizinhos para trocar por kits escolares”.
O local em que as crianças que ontem realizavam as caças e hoje buscam proteger, é o Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, localizado no município de Capela, a 67 km da capital sergipana. E o segundo maior remanescente de Mata Atlântica do estado, com uma área total de 894,76 hectares. Criado através do Decreto 24.944 de 26 de dezembro de 2007, o Refúgio objetiva proteger vegetação nativa da Mata Atlântica, bioma enquadrado entre os ecossistemas com elevada biodiversidade e que sofreram severa destruição, correndo risco iminente de desaparecer.
As crianças contam com facilidade e propriedade os animais silvestres que vêem. “Bem te vi, Papa Capim, Pica Pau e o Macaco Guigó”, falou João Pedro, de 07 anos. Como ele, Johnantan Santos de 11 anos, desenvolve um olhar diferente sobre a natureza, e o que antes era objeto de alvo, torna-se um momento de contemplação e descoberta, na Mata e fora dela, “gosto de ver as aves, o Guigó, estudar as plantas, e depois que comecei a estudar percebi que no coqueiro perto da minha casa tem vários ninhos de Pica Pau”, diz.
Um projeto que vem contribuindo com essa mudança de olhar é série de encontros de Observação de Aves no RVS Mata do Junco com crianças da rede pública do município. “O objetivo interagir com a comunidade local, fazendo com que ela se torne o agente mais importante na preservação dos ecossistemas e que o avistamento ou observação de aves permite que as espécies endêmicas da região se tornem referência de preservação”, explica a Coordenadora do Refúgio de Vida Silvestre Mata do Junco, Augusta Barbosa. A unidade é mantida pelo Governo de Sergipe, através da Secretaria de Estado dos Recursos Hídricos, Semarh.
O projeto tem a participação de Paulo Boute, guia de ecoturismo bastante experiente. A história de Paulo se confunde com a história das crianças de Capela. Filho de Ucranianos, criado no Paraná, Paulo se encantou, desde cedo, com a exuberância da natureza e se apaixonou pelos animais. Resolveu estudar e se formou em Agronomia. Mas foi através do turismo ecológico e das expedições que se realizou, principalmente no Pantanal Matogrossense que se realizou. Conhecido mundo afora pelo seu trabalho, Paulo se estabeleceu em Aracaju e logo procurou conhecer a Mata do Junco e se envolveu no projeto junto a Semarh.
Ano Passado, aconteceu o I Curso de Observação de Aves de Mata Atlântica, Durante a realização do curso, que contou com aulas de campo ministradas por Paulo Boute, todos os envolvidos receberam 10 binóculos doados pela entidade norte americana 'Optics for the Tropics'. Nessa aula de campo eles aprenderam a observar, ouvir e identificar as aves.
A partir daí começaram a acontecer os encontros. As crianças, obviamente, ficam ansiosas. Paulo, identificado com elas, dá uma boa notícia a todos “Não existe quantidade e nem tempo de observação. Devemos observar as aves sempre que podemos. O tempo todo. Não devemos ter preguiça para observar os animais na natureza”. Paulo chamou a atenção das crianças sobre a prisão de Pássaros em gaiolas: “Um passarinho não cometeu crime nenhum e não merece ser preso. Além disso, os pássaros na gaiola não reproduzem. Quem põe pássaros na gaiola está tirando o direito de que, as futuras gerações vejam os filhotes e contribuem com a extinção dos animais. Alguns aqui na mata estão ameaçados, por isso, precisamos proteger”, disse.
Na mata do Junco, duas aves estão classificadas em perigo de extinção. São elas: Herpsilochmus pectoralis (Chorozinho de Papo Preto) e a Pyriglena atra (Olho de Fogo Baiano). Oito aves são consideradas endêmicas, ou seja, típicas da região. Uma delas é o (Picumnus pygmaeus) mais conhecido como pica-pau-anão-pintado. Trata-se de uma ave pequena de 11 cm, marrom com manchas brancas, que se alimenta de insetos podendo ser observada subindo nos troncos das árvores na procura de alimento. Além das espécies endêmicas, na unidade de conservação há também algumas aves que desempenham um papel ecológico importante como a de dispersor de sementes. A (Penelope superciliaris) Jacupemba é uma delas existem espécies carismáticas como a (Platyrinchus mystaceus) Patinho, (Hydropsalis albicollis) Bacurau, (Phaethornis ruber) beija flor Rabo-branco-rubro, entre outras. Todas essas aves estão catalogadas em um livro e as crianças observam no binóculo e depois procuram na publicação a ave que viram.
Com isso, eles são capacitados, recebendo todas as instruções de como observar as aves com o intuito de não só protegê-las, mas de propagar essas informações a seus familiares, amigos, no futuro. “Muitos, podem exercer a função de guias, possibilitando uma geração de renda, desenvolvendo um olhar diferenciado sobre a responsabilidade em proteger a área, que além de abrigar inúmeras aves garante a preservação do habitat do macaco guigó- - primata ameaçado de extinção- como também do riacho Lagartixo, importante manancial que abastece a cidade de Capela”, concluiu Augusta Barbosa, crente que está ajudando a formar adultos conscientes e multiplicadores desse novo olhar.

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