Médicos e enfermeiros falam sobre precariedade da Saúde Pública em SE
“Péssimas condições de trabalho são o que provoca a desassistência”
Cotidiano 03/07/2013 18h30

Por Fernanda Araujo

Mais do que questões salariais, são as péssimas infraestruturas e condições de trabalho que, segundo sindicatos da área de saúde, geram grande insatisfação entre os profissionais a atuarem no serviço público. E são esses problemas que atingem negativamente todo processo médico, provocando a desassistência à população e atendimento inadequado, gerando inúmeras reclamações.

Notícias de greves, realizações de assembleias, manifestações de repúdio não são incomuns em uma sociedade que desvaloriza o seu trabalhador. Os servidores estaduais da saúde de Sergipe, por exemplo, vão discutir se paralisam ou não suas atividades nesta sexta-feira (5). 

O presidente do Sindicato dos Médicos de Sergipe (Sindimed), João Augusto (foto), fala dos problemas no interior. Segundo ele, não existem, de fato, postos de saúde. Os médicos que aceitam trabalhos no interior passam a atender a comunidade debaixo de árvores, em creches, escolas, e até na casa dos próprios moradores - sem contar a fila gigantesca e o excesso de horas trabalhadas, sobretudo por se tratarem de locais onde a população é mais carente e propícia a doenças.

“Depois que o paciente consegue atendimento e precisa de exame, não tem, porque não existem condições de fazer. Daí o diagnóstico fica prejudicado. Quando consegue fazer o diagnóstico sem o exame, falta medicamento. Eu estou falando de lugares não muito longe daqui”, completa.

Já no maior hospital público de urgência de Sergipe, o Huse, pacientes dividem macas, ficam em cadeiras ou amontoados em salas, conforme algumas das denúncias proferidas há anos pelos profissionais de saúde.

“Praticamente de estrutura hospitalar que funciona de porta aberta é só o hospital João Alves – Huse. A maioria das pessoas vem para o João Alves, gente de estados próximos também e fica essa situação, lotado. Todo mundo vem para a capital e temos uma rede hospitalar que não funciona. Só tem um na capital e no interior não funciona”, coloca João Augusto.

Com a total desassistência da atenção básica, origem de muitos problemas, segundo ele, os Municípios sofrem com a omissão do poder público. “Se o Município não tem condições técnicas para isso, então o Estado tem que se responsabilizar, mas o dinheiro deixaria de ir para o Município, daí os Municípios não querem abrir mão desse recurso. Nada muda, aí fica esse ciclo. Estes são os principais gargalos, conflitos de quem é a responsabilidade. Ninguém quer assumir o seu papel no sistema de saúde que aparentemente é único”, avalia o sindicalista. E, para ele, não é a presença de médicos estrangeiros que vai mudar esse cenário.

Enfermagem

Na visão dos enfermeiros, as condições de trabalho também são extremamente difíceis de forma generalizada e independente de gestor. De acordo com a presidente do Sindicato dos Enfermeiros de Sergipe, Flávia Brasileiro, é raro ter um local onde o enfermeiro tenha condições plenas, inclusive de segurança.

Ela relata um fato preocupante de violência nesta semana, em uma unidade de saúde da Zona Norte de Aracaju. Segundo ela, a equipe de enfermagem foi ameaçada e quase agredida por moradores da região. A ameaça também é que a unidade poderia ser depredada. Eles reclamavam da falta de atendimento.

“Só tinha um médico de plantão, a equipe estava reduzida, fila cheia, demora de raios-X. Isso tudo sobra para o enfermeiro. Infelizmente a população não consegue enxergar os motivos reais da falta de atendimento adequado e condições do próprio trabalhador”, avalia.

Flávia Brasileiro diz ainda que excesso de trabalho, assédios morais pelos gestores e pacientes (também em unidades privadas), áreas de repouso inadequado, acidentes de trabalho vêm causando desgaste emocional e afastamento de muitos enfermeiros.

Um relatório feito por ela para a Comissão de Saúde do Trabalhador do Conselho Estadual de Saúde mostra em imagens a situação das instalações da sede do Samu em Aracaju.

“Na área de repouso beliches apinhados uma do lado da outra, ar condicionado quebrado, forro do telhado aberto, muitos já presenciaram animais entrando pelo telhado. Colchões sem forro (foto ao lado), furados, sem condições de higienização. Um total abandono pelo gestor. Não existe política voltada para a saúde do trabalhador”, conclui.

Foto principal: Fernanda Araujo

Foto 2: Sindicato dos Enfermeiros, cedida por Flávia Brasileiro

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