O retrato da sociedade através da música
Cotidiano | Por Isabella Karine 29/06/2018 11h10 - Atualizado em 29/06/2018 11h30

Na década de 40, Luiz Gonzaga levou Brasil afora o ritmo, a cultura e a realidade do povo nordestino através das letras de suas canções. Quase oitenta anos depois, assim como o Rei do Baião, ao construir os enredos de suas apresentações, as quadrilhas juninas de Sergipe buscam retratar as dificuldades do Nordeste. O que pouco a pouco vem mudando, é a forma como são feitas essas releituras, que cada vez mais dão espaço para os debates sociais.

Temas que variam entre igualdade racial, conscientização política, empoderamento feminino e até mesmo a superação do abuso de drogas, não deixam, porém, que a história e a regionalidade escapem nos detalhes. No processo de composição e execução dos enredos, os responsáveis pela parte criativa da quadrilha (temáticos, projetistas e coreógrafos), buscam transmitir as ideias por meio da dança e da interpretação dos papéis designados aos quadrilheiros.

A trama se desenvolve no decorrer de uma história de amor, que sempre leva ao casamento matuto independentemente do assunto tratado. Juninas com o olhar considerado mais atual, como a Unidos em Asa Branca e a Pioneiros da Roça não têm medo de levar em suas apresentações temas de grande relevância social.

Donas de si

Foi com o refrão de ‘Uma Nova Mulher’, que se iniciou a trajetória da protagonista do Santo Sertão das Marias, tema que levou a junina Pioneiros da Roça às finais do Levanta Poeira de 2014. Com o propósito de representar a força da mulher nordestina, o enredo conta a história de Maria, uma cortadora de cana que se libertou das condições subumanas de trabalho através da fé e da perseverança.

No decorrer da apresentação, as quadrilheiras interpretam os diversos papéis desempenhados pela mulher sertaneja que muitas vezes são mães, donas de casa e provedoras do sustento do lar simultaneamente. Porém, o público foi cativado, de fato, nos minutos finais da apresentação, quando foram convidadas as Marias que não faziam parte do corpo de dança.

Uma a uma eram reveladas suas vitórias contra os dramas da vida real, como: a batalha contra o câncer, a violência doméstica, os preconceitos do mercado de trabalho, racismo e a superação da dependência química.

Nascida no sertão de Itabi, de família humilde, dona Lusia Souza, 56, vê no Santo Sertão das Marias a sua própria luta de trinta anos atrás, época que ela levava o primeiro diploma acadêmico para casa. Atualmente aposentada na área da educação, ela relembra emocionada os obstáculos e se admira com o debate proposto.

“O tema que a quadrilha apresentou me chamou a atenção, ela faz uma analogia com a minha própria história de vida, uma vez que eu sou oriunda de uma família de agricultores e enfrentei os desafios para procurar me instruir e me graduar, para conquistar uma outra situação de vida. A gente precisa ter muita força, muita fé e determinação para chegar a isso. É muitíssimo importante as quadrilhas fazerem esse tipo de abordagem para que as pessoas reflitam a respeito do seu valor dentro da sociedade e tomem conhecimento do seu poder”, reflete.

Amor não faz mal a ninguém

Em 2009, a Unidos em Asa Branca conquistou o título de campeã do disputadíssimo Festival de Quadrilhas Juninas da Rede Globo, trabalhando a temática de Mistura de Raça e Cor, que conta a história de amor entre o filho do senhor de engenho e a escrava mais bonita do Salão Senhorial. À contragosto de seus pais, o Sinhôzinho se casa com a moça, alforriando toda a senzala.

Através dos versos: “Como é bonito de ver, uma mistura de raças encontrar / Como é bonito de ver, com a mistura de cor, se abraçar”, a junina enaltece a beleza da miscigenação e a diversidade de etnias do território brasileiro. Pensando no poder de disseminação da mensagem pela popularidade da Unidos, o presidente Fábio David decidiu levar o conceito adiante. “A gente sabe que o Brasil é um país preconceituoso. Então, eu como presidente de uma quadrilha quero levar coisas atuais que a gente vive na nossa sociedade e que a gente, com a quadrilha, pode mudar”, explica.

Disponível em plataformas de compartilhamento como o Youtube, a apresentação do grupo ainda é uma referência após quase 10 anos. Espectadores como o estudante de psicologia, Davi Soares, 20, veem na performance uma maneira de reflexão do contexto étnico-social por meio da bagagem histórica.

“Muita gente não se toca como o Brasil tem uma história de miscigenação forte no seu passado, e é necessário o entendimento e o conhecimento desse fato. É interessante a forma como eles apresentam qualquer temática, porque é uma coisa muito mais dinâmica que envolve a arte da dança. Acredito que há vários jeitos de passar os acontecimentos raciais ocorridos no Brasil e eles mantiveram um formato bastante acessível na representação do grupo deles”, comenta.

Apesar de considerar a abordagem um tanto quanto romantizada por tratar de um fator social que ainda está em desenvolvimento entre a população brasileira, o estudante revela se sente contemplado pelo tema, sendo um homem negro, pela intenção do retrato histórico trabalhado na conscientização.

 

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