Redes sociais: pessoas mobilizadas em número, não em comprometimento
Duas causas movimentaram internautas de Sergipe nos últimos dias
Cotidiano 02/12/2012 09h00

Por Elisângela Valença

O mês de novembro foi marcado, em Sergipe, por dois fatos que acabaram mobilizando parte da população nas redes sociais. No último dia 19, o funcionário público José Hunaldo Pereira, 54 anos, foi agredido por um vizinho no condomínio onde moravam. Ele teve que fazer reconstituição facial, ficou internado por vários dias e teve a primeira alta médica suspensa porque descobriram costelas quebradas, camufladas nos exames por conta dos hematomas.

Do agressor, pouco se sabia. Uma sobrinha da vítima conseguiu uma foto e postou no Facebook (abaixo). Em dois dias, a foto tinha alcançado vinte mil compartilhamentos e várias informações chegaram à família. “Quando eu fui prestar queixa, eu só sabia o nome e a cor do carro. A partir das redes sociais e de vizinhos, foi que descobrimos nome, dados e muitas outras informações”, disse Lana Carina Pereira, filha de José Hunaldo.

Na penúltima semana do mês, a população aracajuana entrou em polvorosa quando foi anunciada a cobrança de estacionamento nos shopping centers da cidade a partir do dia 26 de novembro. Surgiu, nas redes sociais, a ideia de boicotar os shoppings de 26/11 a 05/01/2013. Foram criados uma página no Facebook, que possui mais de quatro mil membros, e um evento do boicote, com mais de 24 mil confirmações de presença.

Entre as publicações e comentários, levantou-se a questão do motivo da mobilização e reação da população. “Quando um rapaz foi assassinado e uma garota foi estuprada por seguranças do shopping, ninguém se mobilizou, ninguém quis boicotar. Agora que vai mexer no bolso de cada um, todo mundo se sentiu atingido”, disse uma estudante universitária, que preferiu não ser identificada na matéria.

Que as redes sociais têm um grande poder de mobilização em torno de temas e questões, é inegável, mas é preciso analisar até que ponto isso é realmente algo bom ou ruim.

Segundo a jornalista e professora universitária Polyana Bittencourt, para entender este tipo de atuação é interessante pensar quem é que está nessas redes sociais. “Qual o nível de educação, qual o nível de engajamento dessas pessoas? A rede social pode ser fantástica, mas também pode levar a coisas negativas, dependendo de quem se envolve no assunto”, disse.

Segundo ela, a rede social promove, sim, atos de cidadania com mais facilidade, levando em consideração a velocidade para a transmissão de informações e o tempo curto de retorno. “Como ela é muito rápida, com um tempo relativamente curto, é possível compartilhar muito mais rápido uma informação e conseguir engajar um maior número de pessoas em torno de um assunto. Por outro lado, essa mesma rede, que tem essa facilidade toda, essa velocidade para disseminar essas informações, acaba dando menos tempo para refletir sobre aquilo que a gente está fazendo”, observou.

“Muitas pessoas agem porque veem os outros agindo, então é mais um na massa, mais um em meio à multidão. Milhares de pessoas estão mobilizadas, mas pergunta lá a dez por cento se elas sabem sobre o que elas estão discutindo, questionando, exigindo. Se parar para pensar, por exemplo, sobre este boicote aos shoppings, qual o critério foi utilizado para realmente entrar nas redes sociais e mobilizar pessoas?”, questionou.

A professora relembrou o movimento ‘Caras Pintadas’, que culminou no impeachment do então presidente da República Fernando Collor.  “Quantos jovens estavam lá, com a cara pintada, e nem sabiam o que estavam fazendo ali, por que estavam ali? As redes sociais fazem a mesma coisa. É um meio fantástico, que promove mobilização e ações de cidadania, mas, por outro lado, esses milhares de pessoas estão mobilizadas em número, mas não em ideal, em comprometimento”, criticou.

A professora chama a atenção para a individualização de causas sociais. “A pessoa está na multidão, mas defendendo o que é dela e não defendendo necessariamente o que é nosso. Não se está pensando nos shoppings como um ambiente de socialização, que deveria ter acesso democrático. Exige-se mudanças naquilo que influencia ‘na minha vida’, enquanto se ignora questões que estão sendo decididas e vão influenciar na minha vida, na sua, na dos nossos filhos e que podem trazer prejuízos reais e muito mais danosos", acrescentou.

Apesar de todo ‘oba-oba’, que sempre existiu em torno de inúmeras questões e foi potencializado com as redes sociais, o cidadão ganhou um maior poder de expressão. “O cidadão, hoje, ganhou mais voz. Podemos dizer que ganhamos, enquanto usuários, um pouco de poder de interferência em decisões que normalmente vinham de cima para baixo, por um conglomerado de emissoras, por quem detém o poder”, diz Polyana. “É preciso consciência e percepção real do que está acontecendo, do que se está fazendo e do que você está participando”, acrescentou.

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