Senna. Mais um 1º de maio
Cotidiano 01/05/2013 11h07Por Marcio Rocha
Todo o dia 1º de maio, o brasileiro comemora o dia do trabalhador e comemora com um dia de lazer, ou fica em casa com a família para curtir seu dia livre. O dia alusivo ao trabalhador também tem um lado diferente para as pessoas que gostam de automobilismo. Justamente o dia em que um acidente na curva Tamburello do circuito de Ímola, na Itália, ocorrido na sétima volta do Grande Prêmio de San Marino, aconteceu e levou para o outro lado um dos maiores ícones do esporte brasileiro, certamente do automobilismo mundial. O homem que não era apenas um ídolo de um grupo de admiradores do esporte a motor, mas de uma nação que parava para vê-lo nas manhãs e algumas madrugadas de domingo, mostrar que a bandeira brasileira tremulava no lugar mais alto do pódio.
Esse sentimento que brotava quando Ayrton Senna da Silva, um jovem de 34 anos que andava mais rápido que qualquer ser humano a bordo de um carro fórmula, é chamado de ufanismo pelo Aurélio. Entretanto, não se tratava apenas de saber que o Brasil era o melhor do mundo em alguma coisa que não fosse o futebol, óbvio, mas sim de cada um dos então 150 milhões de brasileiros acreditar e ir empurrando com o pensamento o carro pilotado pelo homem que usava o capacete engraçado, amarelo com uma faixa verde e outra azul. Cores ainda escolhidas à época do Campeonato Mundial de Kart, quando os pilotos eram obrigados a usar capacetes coloridos de acordo com as cores da bandeira do seu país.
Senna, desde garoto andava rápido. Ainda criança com quatro anos, ganhou seu primeiro kart de seu pai, Milton, empresário do ramo de materiais de construção. Não sabia o pai que ali estava estabelecendo a ligação de seu menininho com todo o país ao longo dos anos passantes. Com 13 anos, Ayrton conquistou seu primeiro título brasileiro de kart. Em 1980, Senna já tinha o seu primeiro tricampeonato. Partindo daí, após conquistar também dois títulos sul-americanos do pequeno bólido, para a Europa. Lá disputou os campeonatos de Fórmula Ford da Inglaterra e seu patrão, Ralph Firman, o mesmo piloto que se deu muito mal na Fórmula um e a coisa mais empolgante que tinha era o capacete com uma alça de mira impressa, afirmou que o garoto ia longe, muito longe.
Sua ascensão no automobilismo foi meteórica. Em 1983, já estava pilotando no Campeonato de Fórmula 3 e conseguindo, pra variar, mais um título. Estava chegada a hora. Senna sentou em um carro de Fórmula 1 pela primeira vez, um teste para a Williams Engineering Racing que fez o então atlético ranzinza e atual simpático garageiro cadeirante, Frank Williams, se surpreender com os tempos alcançados no circuito de Brands Hatch.
Senna também testou o carro da Brabham, à época do empresário Bernie Ecclestone, o cara que hoje destrói a categoria em doses homeopáticas e às vezes cavalares de psicotrópicos. Lá houve uma barreira, Nelson Piquet, que não queria o menino de São Paulo na equipe de hipótese nenhuma. Sabia que teria muitas dificuldades com Senna na equipe, mesmo ele sendo dono de dois títulos mundiais à época. Então quis o destino que Senna sentasse no bólido azul, vermelho e branco da Toleman, ainda remanescente na categoria dos tempos atuais como Lotus, depois de ter sido Benetton e Renault.
Em 1984, já sentado no carro feito até em madeira da equipe do inglês Ted Toleman, Senna fez o melhor campeonato que a equipe nos seus tempos iniciais, antes de ser comprada, poderia ter feito. Senna levou o carro equilibrado, porém desmotorizado, da equipe inglesa para o nono lugar do campeonato de construtores. Senna conquistou 13 pontos com dois sextos lugares, dois terceiros e um segundo lugar questionado até hoje.
A direção de prova encerrou a corrida de Mônaco de 1984 na volta 31, volta em que Ayrton havia passado o então bam bam bam da categoria, Alain Prost, piloto francês que bateu de frente com Piquet e Niki Lauda, os maiores nomes da época, já com títulos.
O resultado final foi contado com a volta 30, quando Senna estava em segundo. Houve confusão, reclamações, mas o resultado não foi alterado. Senna ficou em segundo. Contudo, lá os espectadores ricaços que estavam no principado perceberam quem era o brasileiro que não escorregava, mas deslizava pela pista molhada, rumo à frente.
A primeira vitória não tardou. No ano seguinte, já correndo pela equipe eternizada por Colin Chapman, a Lotus, Senna subiu no lugar mais alto do pódio em Portugal, no circuito do Estoril, dotado da segunda maior reta do campeonato. Em um domingo chuvoso, Senna deu mais uma vez um espetáculo e não deu chance para Prost, Piquet, Mansell, Lauda e outros grandes nomes da categoria. Abandonos e uns bons resultados nas dez corridas seguintes aconteceram até sua segunda vitória. Dessa vez no velocíssimo circuito de Spa-Francorchamps, na Bélgica. Outra vez, em pista molhada, Senna não deu chance para ninguém. Terminou o ano em quarto lugar na classificação geral.
Ainda pela Lotus, em 1986 e 1987, Senna conquistaria mais quatro vitórias. Entre elas, a primeira em Mônaco, para descontar 1984 e iniciar sua maior marca de vitórias em um circuito. Seis vezes na pista de Rainier.
Um contrato valoroso fechado pela montadora japonesa Honda levou Ayrton Senna para o lugar em que nos acostumamos a ver. A bordo do carro branco e vermelho da McLaren. Senna desenvolveu uma excelente relação com os donos da Honda e principalmente com Osamu Goto, engenheiro dos motores de competição da fábrica nipônica. A equipe de Woking venceu nada menos que 15 das 16 corridas do ano.
Oito corridas foram vencidas por Senna, que alcançou 90 pontos no total. Sem o descarte do pior resultado, Senna teria 94 pontos. Mesmo assim, seu primeiro título mundial chegou. O brasileiro começou a despertar mais atenção ainda para a categoria. Senna era um cara que tinha muito apelo popular, não apenas pelo seu jeito simples, bem como pela sua boa relação com a mídia (leia-se Globo), que muito lhe ajudava.
No ano seguinte, a relação entre Senna e Prost ruiu. Após desobedecer a uma ordem de equipe de não ultrapassar o piloto que estivesse na frente, Senna jogou para o alto toda a estruturação montada a favor de ambos os pilotos. Chegando ao grande palco das decisões de campeonatos de Fórmula 1, Suzuka, Senna e Prost se emaranharam logo após a largada. Dizem que a direção de prova foi forçada pelo compatriota de Prost, Jean-Marie Balestre, a trocar os lados de largada dos pilotos, para prejudicar Senna, que largou do lado sujo da pista, mesmo sendo o pole position.
Na primeira curva do circuito, Prost jogou seu carro contra o de Senna, fazendo com que os dois saíssem da pista e Prost não teve condição de voltar. Senna retornou, venceu a corrida e foi desclassificado depois por decisão de quem? Balestre, claro, que deu o título para o piloto fã do Olympique de Marseille. Senna encerrou o ano com seis vitórias.
Em 1990, para mim aconteceu a melhor temporada que Senna disputou na Fórmula 1, também foram seis vitórias que levaram o carro 27 patrocinado pela Marlboro, ainda com motores Honda, ao título. Neste ano a situação foi invertida e Senna jogou propositalmente seu carro contra a Ferrari de Prost, que havia mudado de equipe, injuriado com a preferência de Ron Dennis e da Honda pelo brasileiro. Apenas não passaria da primeira curva novamente, outra vez em Suzuka, circuito que curiosamente, é de propriedade da Honda. Senna encheu o cavallino rampante de Prost, mandando a si mesmo e seu rival narigudo para a brita. Senna desceu tranquilamente do carro e comemorou seu segundo título. A Prost, coube chiar, mas Balestre não podia fazer nada mais.
O ano do carro McLaren MP4-6 equipado com o poderoso motor Honda de 12 cilindros, 1991, foi de um completo domínio de Senna. Sete vitórias e seu tricampeonato mundial. Senna venceu pela primeira vez em casa. O circuito de Interlagos foi remodelado e Senna participou diretamente da construção do novo traçado. Não tinha como perder em casa com a pista nova e o motor que dava quase 340 km/h na reta oposta, lá na frente do setor G, onde gosto de assistir as corridas que posso acompanhar ao vivo.
O ano de 92 foi de um domínio massacrante por parte da equipe Williams, aquela mesma que Senna testou, mas não quiseram porque o garoto não tinha experiência na categoria-mor. Caramba! O texto já vai a nove mil caracteres! Bem, para resumir. Senna teve apenas duas vitórias e foi o terceiro no campeonato. Ficou atrás de Nigel Mansell, o “leão”, rápido com o pé e lento da cabeça, dono de vários dos acidentes mais bizarros da história da fórmula um. Conhecido como o “idiota veloz”, e de Riccardo Patrese. Italiano igual a “chok”, o famoso mingau de arroz do filme “Se Beber, Não Case 2”.
O carro mais bonito de todos os tempos já projetado para correr na Fórmula 1. O perfeitamente simétrico e bem desenhado MP4-8 deu a Ayrton a sua segunda vitória no circuito paulistano de Interlagos, e uma cena épica para os fãs do piloto e do automobilismo mundial. Senna carregado pelo povo que invadiu a pista, impedindo que concluísse a volta da vitória. O piloto levou dez minutos para poder chegar ao pódio e comemorar com mais de 70 mil brasileiros que viram a cena que marcou a vida de Senna para toda a nação. Ah, e com uma ajudinha da garoa, Senna ultrapassou Damon Hill e venceu em sua terra.
A corrida seguinte, Donnington Park... vários vídeos dessa corrida são vistos e divulgados todos os dias no mundo. Qual seria o motivo? Senna apenas deu a melhor volta sob um temporal que qualquer piloto na face da terra pode tentar, mas não conseguirá fazer a mesma façanha. Largando em quarto, com um parco motor Ford de V8, Senna disparou. Começou mal, perdeu a posição para o austríaco Karl Wendlingger, que quase morreu em Mônaco no ano seguinte, e caiu para quinto. Na segunda curva, tirou da Sauber do austríaco e partiu para caçar Michael Schumacher, passou o alemão, seguiu para cair em cima de Hill, tirou pela lateral e colocou o campeão de 1996 para tomar spray na cara. Caça a quem? Prost.
O francês tentou jogar seu carro em cima de Senna, mas o brasileiro escapou e conseguiu fazer a quarta ultrapassagem em pouco mais de um minuto. Final da corrida? Prost em terceiro, humilhado por ter tomado uma volta de vantagem do vencedor. Foram apenas cinco vitórias no ano e mais um vice-campeonato. O resto da história já foi contado no começo. Não tenho porque lembrar de 1º de maio de 1994. Hoje ele é um dia de memória a um cara que acima de tudo era um trabalhador como qualquer outro. Apenas o que o brasileiro e o fã de automobilismo queria ver era a cena da imagem acontecendo.
Desenho: Oleg Konn

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