Siqueira: o bairro que impulsionou o desenvolvimento econômico de Aracaju
Cotidiano 17/03/2018 09h13 - Atualizado em 17/03/2018 18h19

Por Fernanda Araujo

“E aí, vai descer pro comércio?” “Vai descer para a cidade?” São expressões relacionadas ao centro comercial de Aracaju que marcam o desenvolvimento da cidade que hoje, 17 de março, completa 163 anos. Antes do fortalecimento de outros bairros, todo o comércio da nova capital era concentrado no Siqueira Campos, antiga região do Aribé, que dominava boa parte da cidade.

Considerado por estudiosos um dos mais emblemáticos bairros da capital, o Siqueira surgiu no início do século XX, mas denominado de “Oficinas” lugar onde se fundia o ferro para a fabricação de trilhos, tendo se tornado um dos polos de atração de empregos fora do centro urbano.

Com o surgimento da rede ferroviária, pouco a pouco, segundo o historiador Luiz Antônio Cruz, a região, que mais parecia um povoado com sítios de árvores frutíferas, começou a receber novos moradores, retirantes que fugiam da seca, da fome, do desemprego e do banditismo. A partir daí, pequenos sítios foram loteados dando lugar a vilas, casas de palha e alvenaria, transformando a região mais populosa.

Tempos depois, o nome Oficinas deu lugar a “Aribé”, “em alusão às tigelas de barro trazidas de Propriá pelo trem e comercializadas na feirinha local”. Nas bandas do Barro Vermelho, atual Avenida Santa Gleide, havia a olaria de Maria Aribé, que produzia tijolinhos e telhas artesanais de cerâmica vermelha, produtos que foram utilizados nas primeiras construções de alvenaria de Aracaju.

“O Aribé era considerado uma ‘cidade dentro da capital sergipana’, no entender de Mário Cabral. Lá residiam operários das fábricas, ferroviários da estação, estivadores, pequenos comerciantes, lavadeiras. Por ser tão dinâmico, o Aribé tinha vida própria: sua feira, seus cinemas, suas padarias, suas igrejas, suas lojas comerciais, bodegas, bares e cabarés. Comunicava-se com o centro urbano-comercial com linhas de bonde e marinetes”, ressalta Luiz Cruz, doutor em história social pela Universidade Federal da Bahia (UFBA).

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Mais tarde, em 1930, o bairro, atualmente com terrenos mais valorizados, foi oficializado com o nome de Siqueira Campos, em homenagem a Antônio Siqueira Campos, um militar e político brasileiro que participou do movimento tenentista e da Revolta dos 18 do Forte no Rio de Janeiro, em julho de 1922.  

“Mesmo com a oficialização, alguns antigos moradores não o aceitaram passivamente. O nome Aribé continuou a existir, e persistir, como uma forma de resistência às imposições do poder público. Lá residiam pessoas ilustres, a exemplo: o poeta Santos Sousa, o apresentador Hilton Lopes, o padre Moreira Lima, dentre outros. Acredito que o Aribé marcou – e ainda marca – de alguma forma a vida dos aracajuanos”, diz Cruz.

Ao longo dos anos o bairro sofreu grandes modificações com o aterramento de uma grande lagoa e saneamento das ruas. É considerado o bairro com maior praça comercial de Aracaju, pela diversificada rede varejista e de serviços, e praça bancária expressiva. No entanto, na opinião do historiador, o bairro vive um tempo de abandono e tem perdido força com o surgimento de outras áreas dinâmicas na cidade como Jardins, Farolândia, Augusto Franco e Bugio, apesar de ainda manter a sua vocação comercial ao longo das décadas.

“Seu centro econômico continua importante, sem dúvidas, contudo tem perdido força. Além disso, famílias inteiras se mudaram para outras regiões da grande Aracaju, afetando sua dinâmica interna. Antigamente, a maioria das coisas comercializadas no Siqueira era absorvida por seus próprios moradores, o que não acontece mais”, ressalta Cruz, acrescentando que o alto índice de criminalidade também contribui para fechar lojas e afugentar investimentos.

Características preservadas

Para Luiz Cruz, pouca coisa ainda lembra o singelo mundo do Aribé, com a simplicidade e tranquilidade que ditava a vida cotidiana das pessoas, porém, segundo ele, o bairro ainda preserva alguns aspectos, que são percebidos nos nomes das ruas em alusão aos estados brasileiros como as ruas Bahia, Alagoas e Santa Catarina, e aos filhos ilustres Carlos Firpo e Mariano Salmeron.

Neste espaço ainda se reúnem as práticas religiosas do espiritismo, protestantismo e catolicismo; permaneceram a procissão de Nossa Senhora de Lourdes e o desfile cívico na Rua de Bahia. “Alguns descendentes dos primeiros moradores ainda residem lá ou alugaram sua propriedade. Antigas barbearias, padarias e tempos religiosos heroicamente resistem ao passar do tempo. De certa forma, andar pelo Siqueira Campos ainda representa se movimentar por um passado aracajuano repleto de ricas memórias”, considera o historiador.

Mesmo assim, segundo ele, lugares marcantes da memória social sofrem com as ações do tempo, “a antiga estação ferroviária está abandonada e sofre depredação constante, a feirinha do Aribé nem lembra o seu tempo áureo, as salas de cinema estão de portas fechadas, a famosa boemia da noite deu lugar ao medo da violência. Hoje, no limiar do século XXI, o nome Aribé persiste nos nomes das lojas e nas memórias diversas dos antigos moradores”.

Da Leste

A estação da empresa Leste Ferroviária, na Praça dos Expedicionários no Siqueira Campos, foi inaugurada em 1913, como ponta de linha, na continuação da então linha do Timbó. Pequena e modesta, durante a revolução de 30, por onde as tropas passaram, seu pátio ficou muitas vezes lotados de curiosos. Somente nos anos 1940 a estação foi demolida para a construção da atual; maior, era um exemplo da arquitetura moderna.

De acordo com o historiador, quando se formou, a estação teve um papel crucial na vida dos moradores do Aribé e em toda a cidade, já que representava o principal meio de ligação entre a capital sergipana e outras partes do interior sergipano, alagoano e baiano. Além disso, assumiu papel de escoar produtos agropecuários, do extrativismo vegetal e mineral.

“Eram açúcar, farinha, sal, feijão, arroz, algodão, madeiras, pele de borracha de mangabeiras, fertilizantes, potássio e derivados de petróleo. Os vagões permitiram a movimentação de maquinarias e técnicos, alavancando assim, a economia estadual. A descoberta de poços de petróleo e a sua grande produção fizeram com que a imprensa nacional chamasse ‘Sergipe: o Texas do Brasil’. Por meio desta via férrea, o presidente Getúlio Vargas veio da Bahia e hospedou-se na cidade de Aracaju no início dos anos de 1930. O vaivém do trem foi tão marcante no Siqueira Campos, que seus antigos moradores o batizaram de ‘Maria dos Cavalos’”, completa Luiz Cruz.

Depois de décadas, a estação passou a ser utilizada por uma empresa que transportava combustíveis para Sergipe, o local passou por uma restauração em 2004, mas anos depois a empresa parou de atuar no Estado e, atualmente, a estação se encontra abandonada.

Para Luiz Cruz, a revitalização do prédio é urgente, ainda que a reativação da ferrovia dependa de uma análise mais criteriosa. “A Estação está sendo depredada continuamente, sem que nenhum órgão público tome a devida providência. Contudo, não sei se “reativar” o sistema ferroviário seria o caminho mais correto neste momento, porque este meio de transporte entrou em uma fase de discussão extremamente moderna, por ser altamente tecnológica, e infelizmente, Sergipe está bem longe de se envolver nela, embora a grande Aracaju já necessitasse de um meio de transporte mais ágil e dinâmico, entre Socorro, São Cristóvão e Aracaju”, conclui.

 

Fotos: Arquivo Publico / Alda Vanessa/ Fernanda Araujo

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