Trânsito: o desafio do compartilhamento de espaços
Cotidiano 19/01/2018 15h30 - Atualizado em 19/01/2018 16h57

Por Fernanda Araujo

Em meio ao caos no trânsito, compartilhá-lo é um desafio. A convivência entre os diferentes modais ainda não é das mais amistosas. O estresse, muitas vezes, leva o condutor a ter um comportamento agressivo com quem está ao seu lado - situação que propicia a escalada da violência, acompanhada de reações exageradamente hostis, do desrespeito às leis de trânsito e de acidentes.

Ciclistas e pedestres são os principais atingidos pela conduta irregular no trânsito. Só em 2017 na capital sergipana, aconteceram 58 acidentes envolvendo ciclistas, dos quais seis sem feridos, 44 com vítimas não fatais e oito resultando em mortes.

“O trânsito é feito por hierarquia: pedestre, ciclista, motociclista, carros de passeio, transporte urbano e veículo de carga. Se não obedecer isso, vai ter confusão. No Brasil, salvo raras exceções, tem essa confusão o tempo inteiro, principalmente nas cidades menores”, afirma o engenheiro de trânsito Nelson Felipe.

É senso comum que a cordialidade reduz a chance de conflitos e até de acidentes de trânsito. O psicólogo comportamental e professor da Universidade Federal de Sergipe Diogo Seco Ferreira, que também pedala, acredita que o trânsito de veículos automotores coloca seres humanos em condições particulares de interação, o que pode influenciar no tipo de conduta que observamos corriqueiramente. Para ele é importante descobrir esses fenômenos para a construção de uma convivência harmoniosa.

O professor acrescenta que a interação desses atores sociais com motivações gera condições de competição por espaço e posição. “É de se esperar que alguns usuários do trânsito se sintam merecedores de tratamento especial, seja por serem usuários mais pesados (taxistas, motoristas de ônibus) ou por serem financeiramente mais bem providos. O descompasso dessas expectativas com a realidade pode levar a muitas frustrações”, diz.

A Psicologia sugere que seres humanos lidam com máquinas de forma diferente, a tolerância, confiança e empatia, funcionam de forma distinta quando a interação é com carros. Um simples mal entendido entre pedestres pode ser superado com uma troca de olhares e gestos; no trânsito motorizado, porém, equívocos cobram um preço bem mais alto.

“Infelizmente, aspectos sociais e econômicos de nossa sociedade vêm nos privando paulatinamente de espaços para que treinemos essas habilidades sociais. Vivemos cada vez mais encapsulados em condomínios, fazemos compras em shopping centers fechados e nos locomovemos em meios de transportes individuais. A ausência desses espaços de “fricção” social dificulta o aprendizado de regras de convivência harmônica entre indivíduos. E este é um problema que se retroalimenta, pois com menos habilidades sociais, sentimos menos vontade de interagir, o que por sua vez perpetua nosso déficit dessas mesmas habilidades”, aponta Diogo Seco.

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Para tentar mediar os interesses, existem os agentes de trânsito. Em Aracaju, são cerca de 230 homens e mulheres que circulam pelas ruas da capital com a função de garantir a fluidez e segurança do tráfego, um número que, pelas contas do Sindicato da categoria, ainda é insuficiente. Não há previsão de concurso para a função.

“Algumas áreas ficam descobertas e a gente prioriza os bairros com maior fluxo como o Centro, São José, Siqueira Campos”, diz Fábio Bulandeira, presidente do Sindicato dos Agentes de Trânsito, informando que por turno trabalham 10 duplas motorizadas e seis duplas em viaturas da Superintendência Municipal de Transporte e Trânsito.

Fábio, que atua na profissão há cinco anos, já se deparou com muitas cenas de desrespeito dos condutores aracajuanos, mas para ele, o principal vilão da mobilidade na capital tem sido a desatenção. “A presença do agente é respeitada pela maior parte dos motoristas e o número de acidentes é reduzido. No entanto, o uso do celular ainda é muito recorrente no trânsito da capital, seguido do não uso do cinto de segurança”, afirma Bulandeira.

“O trânsito é questão de pedagogia, só passa a ser de segurança pública quando envolve crime”. Nelson Felipe.

Para o engenheiro de trânsito Nelson Felipe, a fiscalização precária e a falta de aplicação rígida das penalidades facilita o desrespeito à legislação. “Se tem um trânsito em que a fiscalização é precária, a conscientização pouco importa. A legislação é boa, mas falta aplicação correta da penalidade. O cidadão tem que ser punido de imediato, em tempo que a multa seja pedagógica”, acredita.

Segundo ele, algumas penalidades vieram tardias, como a mudança nos valores das multas e a exigência da pontuação na CNH com suspensão do direito de dirigir, o que está no Código de Trânsito há 20 anos.

“A aplicação da pena no Brasil é muito branda. A quantidade de mortes e infrações poderia ser evitada se o valor pecuniário da multa tivesse sido corrigido há muito tempo. Não é para que o cidadão seja o tempo todo multado, mas fazê-lo entender que ele não deve fazer isso, senão será punido de maneira eficaz e breve”, observa Nelson.

No Brasil, o cidadão que comete infração no trânsito tem direito a recorrer à multa. O tempo para julgamento é de seis meses. Se houver indeferimento, a pessoa pode recorrer novamente ao Conselho Estadual de Trânsito (Cetran), que pode passar dois anos para julgar a multa. Depois, o condutor pode ainda recorrer ao Conselho Nacional de Trânsito (Contran), que demora até mais cinco anos para julgar a infração.

“A pessoa paga multa daqui a um ano, sete anos, e nem se lembra de quando foi. O trânsito é questão de pedagogia, só passa a ser de segurança pública plena quando envolve crime”, afirma Felipe, que defende a inclusão da disciplina Educação para o trânsito na grade curricular desde o ensino fundamental.

“O comportamento no trânsito traduz a educação da sociedade”, Seco

O psicólogo Diogo Seco também defende que desde a infância as pessoas deveriam receber uma educação mais geral, para a convivência harmônica entre indivíduos com interesses diferentes. Segundo ele, a construção de um trânsito respeitoso é um caminho longo, que envolve ações educativas, estudo minucioso sobre as condutas dos atores do trânsito para saber como e onde intervir, mas também a punição de transgressões e recompensa do bom comportamento.

“Campanhas de conscientização, embora necessárias, são apenas uma pequena parcela das ações para mudança de comportamento. Esta tarefa deve envolver uma atitude de experimentação nas políticas públicas, observando de forma cuidadosa o efeito de práticas adotadas, para corrigir o curso daquelas que não demonstrarem efeito e manter as que mostrarem-se efetivas”, completa Seco.

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Fotos: Fernanda Araujo e Will Rodriguez/F5 News
Infográficos: Will Rodriguez/Elaborado em 16/01/2018

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