Violência : professores focam pais de alunos e esquecem a polícia
Cotidiano 14/08/2014 10h00

Por Elisângela Valença

Na noite da última segunda-feira (11), o professor Carlos Cristian Almeida Gomes foi alvejado na Escola Estadual Olga Barreto, que fica no conjunto Eduardo Gomes, em São Cristóvão, Grande Aracaju. Ele estava na sala dos professores quando um aluno chegou com um revólver e o atingiu, pelas costas, com cinco tiros. O que se sabe é que a motivação foi nota baixa, mas o autor dos disparos ainda não foi encontrado. O professor segue internado em estado grave no Hospital de Urgências de Sergipe (Huse).

Na manhã de hoje (14), professores e alunos de diversas escolas públicas, familiares e amigos do professor Carlos Cristian se reuniram num ato por segurança, que aconteceu em frente ao Palácio de Despachos.

O assunto ampliou a discussão em torno da segurança nas escolas, ponto de pauta em negociações entre professores e poder público. “É preciso que se haja a discussão e a gestão democráticas nas escolas, pois todos os entes precisam participar da vida das escolas: alunos, professores, pais, poder público”, disse Roberto Silva, da direção executiva do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Estado de Sergipe (Sintese).

“A falta de segurança na vida escolar envolve diversos pontos, desde a estrutura familiar à vida em comunidade e todos devem participar. A luta é pela segurança de toda a comunidade, dentro e fora da escola”, acrescentou Roberto.

A estrutura familiar acaba se tornando um agravante na vida escolar. “Os pais são ausentes, não acompanham os filhos, nem na escola e nem em casa. Quando aparecem, alguns querem dar razão ao mau comportamento do filho”, disse Djalva Lima, pedagoga e que trabalha na Escola Olga Barreto há 16 anos.

Andreza Lobão, professora de Matemática no Estado há 12 anos, já sofreu duas ameaças de morte em sala de aula. Uma numa escola no bairro Mosqueiro, zona de Expansão de Aracaju. Um aluno tirou uma nota baixa, pintou todo o carro dela e ainda disse “se não me passar, você vai morrer”. A segunda foi numa escola na cidade de Laranjeiras, Grande Aracaju. Ela foi corrigir um mau comportamento em sala e o aluno foi para a escola com uma faca e disse que ia matá-la na frente dos colegas.

“Infelizmente, os pais não acompanham os filhos em momento algum da vida deles. Quando aparecem na escola, querem saber porque o filho está tirando nota baixa. Você explica que ele anda desinteressado e a mãe diz que você que não sabe ensinar, falar de forma agressiva, bota o dedo na cara da gente. O filho vê este tipo de atitude e acaba repetindo”, disse a professora.

O professor Adelmo Menezes, presidente do Sindicato dos Professores Municipais de Aracaju (Sindipema), lembrou que não é a primeira vez que um professor é baleado dentro da escola. “Em 2012, o professor Edilson Gomes foi alvejado dentro da Escola Estadual José Augusto Ferraz. Ele ficou com sequelas físicas e psicológicas da violência”, disse Adelmo.

O medo também toma conta dos alunos. ”A gente tem medo de ser roubado ou de não voltar da escola com vida”, disse o aluno Luiz Claudio dos Santos Junior, que estuda há dois anos na Escola Estadual Olga Barreto, onde aconteceu o crime.

Os familiares do professor Carlos Cristian estiveram no ato, mas não quiseram falar com a imprensa. Amigos que trabalham com ele numa clínica de Aracaju (professor Carlos Cristian é também bioquímico) ficaram chocados com o que aconteceu. “Nosso sentimento é de revolta. A impunidade precisa acabar e a segurança pública precisa ser encarada com seriedade. Estamos perdendo vidas”, disse Alessandro Freire Freitas, que trabalha com Carlos Cristian há seis anos na clínica.

Através de nota, a Secretaria de Estado da Educação (SEED) informou que as aulas foram suspensas na escola e que está dando assistência à família do professor e à comunidade escolar. Técnicos da Seed estão à disposição dos familiares do professor no que se refere a apoio e suporte emocional. 

Segundo a nota, a equipe de psicólogas da Seed vai iniciar um trabalho de acolhimento junto aos professores e servidores da escola. A ação vai se realizar nos três turnos e tem como propósito auxiliar os profissionais a desconstruir os possíveis traumas que o acidente tenha provocado. Os alunos também serão assistidos e a secretaria colocou seus profissionais de psicologia para atender professores e servidores que precisarem de uma assistência individualizada. 

A Secretaria de Estado da Educação também decidiu reforçar os programas de combate à violência e promoção da cultura da paz na escola. A coordenação dos Programas Escolas Promotoras da Paz e Cidadania e Paz nas Escolas estão organizando uma ação emergencial na unidade de ensino onde aconteceu o episódio. O objetivo da secretaria é disseminar a cultura da paz e o enfrentamento à violência através de ações educativas e pedagógicas, mostrando ao aluno, que é preciso desarmar-se da violência e cultivar a paz. 

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